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A coincidência que, para mim, NÃO é coincidência.
SAMUEL GONSALES
Colunista
9/15/20263 min read


Por: Samuel Gonsales
Renomado especialista em e-commerce e transformação digital no Brasil, com mais de 20 anos de experiência no mercado. Palestrante, consultor e autor, ele dedica sua carreira a ajudar empresas de diversos setores a impulsionarem suas operações por meio de tecnologias inovadoras e estratégias de crescimento digital.
Tenho acompanhado o e-commerce brasileiro há muitos anos. E, nos últimos meses, uma sequência de movimentos me chamou particularmente a atenção.
Junho: Amazon lança a Amazon Basics no Brasil.
Junho: Magalu coloca cerca de 12 mil produtos à venda dentro da Amazon.
Agosto: Mercado Livre lança/reformula a Mercado Libre Basics.
Setembro: Magalu coloca cerca de 27 mil produtos à venda dentro do Mercado Livre.
Coincidência? Pode ser.
Mas, quando você olha para o tabuleiro inteiro, começa a parecer mais um xadrez estratégico acontecendo simultaneamente.
E talvez a maior mudança não esteja nos produtos, nos marketplaces ou sequer na tecnologia. Está na cultura das empresas.
Durante anos, falamos de omnichannel como se ele fosse um problema de integração: integrar ERP, e-commerce, marketplace, CRM, estoque, PDV, logística, meios de pagamento...
Tudo isso é necessário.
Mas omnichannel nunca foi, essencialmente, sobre tecnologia. É sobre cultura.
É sobre uma empresa aceitar que o consumidor não enxerga seus canais separadamente. Ele simplesmente compra onde for mais conveniente.
E parece que os grandes players finalmente estão levando essa lógica às últimas consequências.
O Magalu pode vender em seu próprio marketplace, na Amazon e no Mercado Livre. Amazon e Mercado Livre podem continuar concorrendo ferozmente e, ao mesmo tempo, abrir seus ecossistemas para produtos de um concorrente.
Isso exige uma mudança cultural gigantesca: deixar de pensar “meu canal” e começar a pensar “minha participação na jornada do consumidor”.
E aqui entra algo que percebo viajando pelo Brasil inteiro com a ExpoEcomm.
O e-commerce brasileiro não é um mercado único.
O comportamento de um varejista em São Paulo não é necessariamente o mesmo de um varejista em Goiânia. O consumidor de uma cidade do interior de Minas pode ter prioridades completamente diferentes das de um consumidor do Nordeste. Logística, renda, concorrência, hábitos de compra, força dos marketplaces e até a confiança em determinados meios de pagamento mudam de região para região.
Por isso, acredito que estamos caminhando para uma nova fase do omnichannel: não basta integrar canais. É preciso entender os diferentes ecossistemas, regiões e comportamentos nos quais o consumidor está inserido.
Amazon Basics e Mercado Libre Basics adicionam ainda outra camada a esse jogo: os marketplaces querem deixar de ser apenas intermediários. Querem também participar da criação do produto, da margem, da experiência, da logística e, principalmente, da relação com o consumidor.
Então temos algo fascinante acontecendo:
- Concorrentes cooperando;
- Marketplaces virando varejistas;
- Varejistas virando marketplaces;
- Lojas físicas virando infraestrutura logística;
- Marcas próprias competindo com sellers;
- e consumidores transitando por tudo isso sem sequer se importar com quem é dono de cada canal.
Talvez essa seja a grande transformação do e-commerce brasileiro.
O futuro não será omnichannel porque as empresas conseguirão integrar todos os seus sistemas. Será omnichannel quando elas conseguirem integrar sua cultura, sua estratégia e sua capacidade de enxergar o consumidor como um só — independentemente de onde ele compre.
E é por isso que continuo achando aquela sequência tão intrigante:
Amazon Basics → Magalu na Amazon → Mercado Libre Basics → Magalu no Mercado Livre.
Pode ser coincidência.
Mas, quando quatro movimentos aparentemente desconectados começam a apontar para a mesma direção, talvez seja hora de parar de olhar para cada notícia isoladamente.
Talvez o jogo esteja mudando. E talvez o próximo grande diferencial competitivo do e-commerce não seja ter o melhor canal, mas saber jogar em todos os ecossistemas — respeitando as particularidades de cada mercado, cada região e cada consumidor.
Qual será o próximo movimento?
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