Bets movimentam mais dinheiro que o e-commerce e acendem alerta para o varejo brasileiro

VAREJO

Redação

8/13/20265 min read

Estudo aponta que famílias brasileiras perderam R$ 62,5 bilhões líquidos com apostas em 2025. Especialistas alertam que a expansão das bets já altera o consumo, pressiona o varejo e disputa diretamente o orçamento destinado ao comércio eletrônico.

O crescimento das plataformas de apostas esportivas deixou de ser apenas um fenômeno do entretenimento digital. Os números mais recentes mostram que o setor passou a exercer influência direta sobre o consumo das famílias brasileiras e já representa um dos principais concorrentes indiretos do varejo e do e-commerce.

Segundo estudo divulgado pelo Comsefaz (Comitê Nacional de Secretários de Fazenda dos Estados e do Distrito Federal) em parceria com o Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento, as famílias brasileiras tiveram uma perda líquida de R$ 62,5 bilhões com apostas esportivas em 2025. O levantamento considera a diferença entre o dinheiro apostado e o valor devolvido em prêmios.

Ao mesmo tempo, o volume financeiro movimentado pelo setor impressiona: as transferências realizadas via Pix para empresas de apostas chegaram a R$ 350,97 bilhões durante o ano.

Para efeito de comparação, a ABComm (Associação Brasileira de Comércio Eletrônico) projeta que o e-commerce brasileiro deverá faturar aproximadamente R$ 235 bilhões em 2026. Isso significa que o fluxo financeiro movimentado pelas bets já supera, com ampla margem, todo o faturamento anual estimado do comércio eletrônico nacional.

Muito além do entretenimento

Embora parte dos recursos retorne aos apostadores na forma de premiações, o impacto econômico não está apenas no volume bruto movimentado.

Os R$ 62,5 bilhões líquidos representam renda efetivamente transferida das famílias para o setor de apostas — dinheiro que deixa de circular em segmentos tradicionais da economia.

Segundo o estudo, esse valor corresponde a aproximadamente 0,68% da Renda Nacional Disponível Bruta das Famílias.

Na prática, trata-se de recursos que poderiam ser direcionados para consumo de bens, serviços, lazer ou investimentos pessoais.

O varejo já sente os efeitos

O impacto sobre o comércio já vem sendo monitorado por entidades do setor.
Levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) estima que, entre janeiro de 2023 e março de 2026, a expansão das apostas online retirou aproximadamente R$ 143,8 bilhões do comércio varejista brasileiro. Segundo a entidade, esse montante equivale ao faturamento de dois períodos de Natal, a principal data do calendário do varejo nacional.

A CNC também estima que cerca de 270 mil famílias passaram para uma condição de inadimplência severa associada ao comprometimento da renda com apostas.

Um novo concorrente pelo orçamento das famílias

Historicamente, empresas disputavam consumidores dentro do próprio varejo.
Hoje, essa lógica mudou. Uma compra em um marketplace pode competir diretamente com despesas como:

  • apostas esportivas;

  • assinaturas digitais;

  • plataformas de streaming;

  • aplicativos de mobilidade;

  • serviços financeiros;

  • medicamentos de uso contínuo.

O desafio deixou de ser apenas conquistar clientes da concorrência.

Agora, o varejo precisa disputar espaço dentro de um orçamento cada vez mais pressionado.

O e-commerce também entra nessa disputa

O crescimento das bets acontece justamente em um período de amadurecimento do comércio eletrônico brasileiro.

Nos últimos anos, marketplaces, lojas virtuais e operações omnichannel investiram fortemente em:

  • logística;

  • frete rápido;

  • programas de fidelidade;

  • Inteligência Artificial;

  • personalização;

  • meios de pagamento.

Mesmo assim, o aumento da renda disponível não tem sido suficiente para impulsionar o consumo no mesmo ritmo esperado.

Parte dessa explicação pode estar justamente na redistribuição do orçamento das famílias.
Cada real direcionado para apostas deixa de financiar outra decisão de consumo.

Há controvérsias sobre o tamanho do impacto

Embora diversos estudos apontem efeitos relevantes sobre o consumo, existe debate em torno da dimensão desse impacto.

Entidades que representam o setor de apostas contestam parte das estimativas da CNC e argumentam que os gastos representam uma parcela relativamente pequena do consumo das famílias.

Um estudo elaborado pela LCA Consultoria Econômica, encomendado pelo Instituto Brasileiro do Jogo Responsável (IBJR), estima que as apostas representam cerca de 0,46% do consumo das famílias brasileiras, defendendo que o peso econômico seria menor do que o sugerido por outros levantamentos.

Essa divergência metodológica mostra que o tema ainda está em debate entre pesquisadores, governo e representantes do setor.

O comportamento do consumidor está mudando

Independentemente das divergências sobre os números, existe um consenso entre economistas.
O consumidor brasileiro tornou-se muito mais seletivo.

Inflação, juros elevados, crédito mais caro e novas formas de consumo digital fizeram o orçamento doméstico ficar mais disputado.
Para o e-commerce, isso significa que preço competitivo continua importante, mas já não basta.

Empresas precisam justificar por que determinado gasto merece prioridade naquele momento.

Valor percebido passa a ser decisivo

Nesse novo cenário, empresas que conseguem construir relacionamento tendem a preservar melhor suas vendas. Isso envolve fatores como:

  • experiência de compra;

  • confiança na marca;

  • entrega rápida;

  • atendimento eficiente;

  • programas de fidelidade;

  • personalização;

  • pós-venda.

Quanto maior o valor percebido pelo consumidor, menor a dependência exclusiva de promoções.

Inteligência de dados ganha ainda mais importância

Outra consequência desse cenário é a necessidade de compreender melhor o comportamento do consumidor. Campanhas passam a considerar fatores como:

  • renda disponível;

  • sazonalidade;

  • comportamento regional;

  • categorias mais afetadas;

  • frequência de compra;

  • retenção de clientes.

Empresas orientadas por dados conseguem adaptar estratégias com maior rapidez diante das mudanças do mercado.

O que o e-commerce pode aprender com esse cenário?

O avanço das bets evidencia transformações importantes no comportamento de consumo brasileiro.
Entre os principais aprendizados estão:

  • o orçamento das famílias está sendo disputado por um número crescente de setores;

  • entender o destino da renda do consumidor tornou-se estratégico;

  • fidelização ganha importância em ambientes de maior competição;

  • experiência do cliente influencia diretamente a decisão de compra;

  • dados ajudam empresas a responder mais rapidamente às mudanças de comportamento.

O maior concorrente do varejo pode não ser outra loja

Os números mostram que a competição pelo bolso do consumidor mudou de patamar.
Hoje, marketplaces, lojas físicas e operações de e-commerce disputam espaço com plataformas de entretenimento, serviços digitais e, cada vez mais, com o mercado de apostas.

Independentemente das discussões sobre a magnitude desse impacto, o fato é que bilhões de reais deixaram de circular no comércio tradicional e passaram a integrar uma nova dinâmica econômica.

Para o varejo, a principal lição é clara: compreender as mudanças no comportamento financeiro das famílias será tão importante quanto investir em tecnologia, logística e marketing. Em um mercado cada vez mais competitivo, vencer não depende apenas de oferecer o melhor produto, mas de conquistar uma parcela cada vez mais disputada da renda disponível do consumidor.

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