Casas Bahia fecha 298 lojas e corta 1,9 mil funcionários: reestruturação expõe a transformação do varejo brasileiro

VAREJO

Redação

8/16/20268 min read

Enxugamento da rede física ocorre enquanto o Grupo Casas Bahia tenta recuperar rentabilidade, reduzir endividamento e fortalecer sua operação digital. Movimento mostra que, no novo varejo, presença física precisa justificar seu papel dentro de uma estratégia cada vez mais omnichannel.

Uma das marcas mais tradicionais do varejo brasileiro está redesenhando sua presença física.

O Grupo Casas Bahia fechou 298 lojas e desligou aproximadamente 1,9 mil funcionários, segundo informações divulgadas pelo Valor Econômico e confirmadas em reportagens posteriores. Os cortes fazem parte do processo de reestruturação da companhia e colocam novamente no centro do debate uma questão que atravessa todo o varejo: qual será o papel das grandes redes de lojas físicas em um mercado cada vez mais digital?

O movimento acontece em um momento particularmente desafiador para a companhia. No primeiro trimestre de 2026, o Grupo Casas Bahia registrou prejuízo líquido de aproximadamente R$ 1,1 bilhão, ainda pressionado por despesas financeiras e pelo custo de sua dívida. Mas existe outro lado dessa história.

Enquanto reduz estruturas físicas consideradas menos eficientes, a empresa vem apresentando avanço importante no digital. No primeiro trimestre, as vendas online de produtos próprios cresceram 27,4% na comparação anual, o melhor desempenho em 19 trimestres, segundo dados da própria companhia.

O contraste ajuda a entender que a transformação em curso vai além do simples fechamento de lojas.

298 lojas fechadas mostram a dimensão do ajuste

Segundo o Valor Econômico, a reestruturação resultou no encerramento de 298 unidades. Cerca de 1,9 mil trabalhadores foram desligados em dois dias, conforme informações do Sindicato dos Empregados no Comércio de Osasco e Região (Secor) repercutidas pela Folha de S.Paulo.

As demissões também abriram uma frente trabalhista. O Secor anunciou que pretende ingressar com ação coletiva questionando a forma como os desligamentos foram realizados e buscando a reintegração de funcionários e indenização por danos morais. O episódio acontece dentro de uma reestruturação mais ampla da companhia.

Nos últimos anos, o Grupo Casas Bahia vem tentando simplificar sua operação, melhorar geração de caixa, reduzir alavancagem e concentrar recursos em negócios e canais considerados estratégicos.

Esse contexto é fundamental. O fechamento de lojas não pode ser analisado isoladamente como consequência do avanço do e-commerce. A situação envolve também o desafio financeiro específico da companhia, sua estrutura de custos e seu processo de recuperação operacional.

O paradoxo: menos lojas enquanto o digital acelera

Um dos dados mais interessantes aparece justamente no comércio eletrônico.

No primeiro trimestre de 2026, o GMV dos produtos vendidos diretamente pela Casas Bahia no ambiente digital — a operação chamada de 1P — cresceu 27,4% sobre o mesmo período do ano anterior. Foi o maior crescimento desse indicador em 19 trimestres.

Segundo a companhia, o desempenho foi impulsionado pelo fortalecimento das principais categorias, aumento do tráfego qualificado e expansão dos canais de venda e parcerias.

Entre esses novos canais existe uma estratégia que chama atenção: a Casas Bahia passou a utilizar também Mercado Livre e Amazon para comercializar seus próprios produtos.

É uma mudança relevante de mentalidade.

Uma varejista que possui site, aplicativo, lojas e marketplace próprios reconhece que o consumidor também está em outras plataformas — e decide encontrá-lo onde ele já compra.

Casas Bahia também é seller

Esse movimento revela uma das transformações mais interessantes do varejo digital. Durante muito tempo, grandes varejistas construíram seus próprios marketplaces e tentaram concentrar audiência dentro deles.

Agora, a lógica está se tornando mais flexível. Uma empresa pode ser simultaneamente:
- varejista;
- marketplace;
- seller em marketplaces concorrentes;
- operador logístico;
- plataforma financeira;
- canal de mídia.

As fronteiras entre esses negócios estão desaparecendo.
Para o consumidor, pouco importa a arquitetura empresarial por trás da compra.
Ele procura preço, disponibilidade, confiança, conveniência e entrega.

Isso obriga grandes redes a abandonarem uma visão centrada exclusivamente no canal e adotarem uma estratégia centrada no consumidor.

O marketplace próprio continua sendo um ativo importante

A redução da rede física não significa que o Grupo Casas Bahia esteja diminuindo sua ambição no comércio eletrônico.

Seu marketplace continua reunindo as operações digitais de Casas Bahia, Ponto e Extra.com.br.

O portal para desenvolvedores da companhia informa uma base superior a 150 mil lojistas e cerca de R$ 1,6 bilhão em GMV de terceiros (3P).
A estrutura também vem sendo profissionalizada.

O programa Casas Bahia Certifica, criado em 2023, avalia hubs de integração a partir de critérios como estabilidade, suporte, funcionalidades disponíveis e desempenho técnico.

Para sellers, isso mostra uma direção importante do mercado: grandes marketplaces estão buscando reduzir os atritos tecnológicos da operação e integrar catálogo, estoque, pedidos, logística e atendimento de maneira mais eficiente.

Logística ganha protagonismo nessa transformação

Existe outra peça fundamental na estratégia: logística.
O Grupo Casas Bahia vem ampliando sua estrutura de fulfillment por meio do CB Full, oferecendo sua infraestrutura também para sellers do marketplace.

A companhia informou em seus materiais técnicos que vinha acelerando investimentos tecnológicos e operacionais nessa frente para ampliar a utilização de sua estrutura logística.
Isso muda a função dos ativos construídos durante décadas.

Centros de distribuição, transportes e infraestrutura deixam de servir apenas às vendas próprias e podem se transformar em serviços oferecidos a terceiros.

É uma lógica semelhante à observada em outros grandes ecossistemas digitais.

A empresa deixa de monetizar apenas a margem obtida na venda do produto e passa a buscar receitas em diferentes partes da cadeia.

Até o espaço físico pode ganhar novas funções

É justamente aqui que o fechamento de lojas merece uma leitura mais ampla.

A discussão não deveria ser simplesmente: “loja física ou e-commerce?”

Essa oposição está ficando ultrapassada. A pergunta mais relevante é: qual função cada ponto físico desempenha dentro da jornada do consumidor? Uma loja pode gerar vendas.

Mas também pode funcionar como ponto de retirada, espaço de experiência, hub logístico, canal de aquisição, atendimento, showroom ou estrutura de relacionamento.

O próprio Grupo Casas Bahia define sua estratégia como omnicanal e afirma buscar uma experiência na qual o consumidor possa se relacionar com a empresa “onde, quando e como quiser”.

Nesse modelo, uma loja não precisa necessariamente ser avaliada apenas pelo faturamento registrado em seu caixa.

Mas ela precisa justificar economicamente sua existência dentro do ecossistema.

O vendedor também virou um canal digital

Talvez um dos exemplos mais interessantes dessa integração esteja no “Me Chama no Zap”.

O Grupo Casas Bahia informa possuir mais de 20 mil vendedores online utilizando a ferramenta para atender consumidores digitalmente de maneira humanizada.

É um exemplo claro de como as fronteiras entre loja física e e-commerce estão desaparecendo.

O vendedor tradicional não precisa necessariamente esperar o consumidor entrar na loja.

Ele pode atender pelo WhatsApp, auxiliar na escolha, apresentar produtos e participar de uma jornada iniciada digitalmente.

Esse modelo também mostra que digitalização não significa necessariamente eliminar pessoas.

Em muitos casos, significa dar às pessoas novos canais e ferramentas.

A tecnologia por trás do e-commerce também está mudando

A transformação passa ainda pela infraestrutura tecnológica.
Em estudo de caso publicado pelo Google Cloud, o Grupo Casas Bahia relata que reforçou sua estrutura de comércio eletrônico utilizando ferramentas de inteligência artificial voltadas para busca e recomendação de produtos.

Uma das mudanças citadas foi a capacidade de aumentar as atualizações diárias de SKUs de cerca de 100 mil para mais de 7 milhões.

Para uma operação de grande escala, esse tipo de infraestrutura é decisivo.
Preço muda.
Estoque muda.
Prazo muda.
Produtos entram e saem do catálogo.
Milhares de sellers realizam alterações simultaneamente.

Quanto maior o marketplace, maior a necessidade de automação e processamento de dados em tempo real.

Retail media abre outra frente de receita

Outra transformação estratégica está acontecendo na publicidade.
O Grupo Casas Bahia vem desenvolvendo sua operação de retail media, utilizando audiência, dados e pontos de contato com consumidores para vender publicidade às marcas.

A estratégia envolve mídia nas plataformas digitais, CRM, publicidade dentro das lojas e comercialização de espaços físicos para anunciantes.
Isso representa uma mudança importante na economia do varejo.

Historicamente, um varejista ganhava dinheiro principalmente com a diferença entre quanto pagava por um produto e quanto cobrava do consumidor.

Hoje, um grande ecossistema pode gerar receita com venda de produtos, comissão de marketplace, logística, serviços financeiros, publicidade e outros serviços.

A rentabilidade deixa de depender exclusivamente da margem da mercadoria.

O desafio financeiro, porém, continua enorme

Toda essa transformação digital precisa ser analisada junto à realidade financeira da empresa.
O avanço das vendas online no primeiro trimestre não impediu que o Grupo Casas Bahia registrasse prejuízo superior a R$ 1 bilhão no período.

Essa combinação oferece um aprendizado importante para qualquer operação de e-commerce: crescer vendas não significa necessariamente melhorar o negócio.

GMV pode crescer enquanto margem diminui.
Receita pode aumentar enquanto custos financeiros consomem o resultado.
Tráfego pode subir enquanto aquisição fica mais cara.
Pedidos podem crescer enquanto logística destrói margem.

Por isso, empresas digitais estão cada vez mais olhando para indicadores como margem de contribuição, geração de caixa, CAC, LTV, rentabilidade por pedido e retorno sobre capital.

O crescimento saudável precisa chegar ao caixa.

O fechamento de lojas não significa o fim do varejo físico

Existe uma tentação de interpretar movimentos como o da Casas Bahia como evidência de que o comércio eletrônico está substituindo definitivamente as lojas.
A realidade é mais complexa.

Lojas continuam desempenhando papel estratégico para muitas categorias, especialmente aquelas em que o consumidor valoriza experimentação, atendimento, disponibilidade imediata ou serviços associados à compra.

O que está mudando é a tolerância a pontos pouco produtivos.
Em um ambiente de juros elevados, margens pressionadas e consumidores extremamente conectados, manter uma grande estrutura física apenas por capilaridade pode deixar de fazer sentido.

A loja do futuro precisa cumprir uma função clara.

Uma lição para operações menores de e-commerce

Embora a escala da Casas Bahia seja gigantesca, existe um aprendizado aplicável também a empresas menores.
Todo canal precisa justificar economicamente sua existência.

Isso vale para uma loja física.
Vale para marketplace.
Vale para mídia paga.
Vale para uma operação própria de e-commerce.
Vale até para redes sociais.

Empresas precisam saber quanto cada canal vende, quanto custa, qual margem produz e como contribui para aquisição e retenção de clientes.
O varejo omnichannel não significa simplesmente estar em todos os lugares.

Significa integrar os canais que realmente fazem sentido para o negócio e para o consumidor.

A transformação da Casas Bahia é também um retrato do novo varejo

O fechamento de 298 lojas e o desligamento de aproximadamente 1,9 mil funcionários representam uma mudança significativa para uma das maiores redes varejistas do Brasil.

Mas observar apenas os fechamentos conta somente uma parte da história.

Ao mesmo tempo em que reduz sua estrutura física, a companhia acelera vendas digitais, comercializa produtos dentro de marketplaces concorrentes, desenvolve fulfillment, amplia ferramentas para sellers, utiliza inteligência artificial, conecta vendedores ao WhatsApp e investe em retail media.

É uma fotografia bastante representativa do que está acontecendo no varejo brasileiro.
A discussão deixou de ser físico contra digital.

O desafio agora é descobrir qual combinação de lojas, e-commerce, marketplaces, logística, dados, mídia e relacionamento produz crescimento sustentável.

Para profissionais e empresas do ecossistema de e-commerce, talvez esse seja o principal aprendizado do caso Casas Bahia: no novo varejo, não vence necessariamente quem possui mais lojas ou mais canais. Vence quem consegue transformar seus ativos em uma operação integrada, eficiente e, principalmente, rentável.

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