Compras internacionais voltam a acelerar após a redução da tributação e aumenta pressão sobre o varejo nacional
VAREJO
Redação
7/28/20264 min read


Para o e-commerce brasileiro, o desafio passa a ser competir cada vez mais por preço, experiência e valor agregado.
A decisão do governo federal de encerrar a cobrança do imposto de importação sobre compras internacionais de até US$ 50 já começa a produzir efeitos concretos no mercado. Poucos meses após a mudança, o volume de encomendas internacionais voltou a crescer de forma acelerada, reacendendo um debate que envolve competitividade, indústria nacional, varejo e o comportamento do consumidor brasileiro.
Dados da Receita Federal analisados por instituições financeiras mostram uma retomada significativa das importações de pequeno valor, impulsionadas principalmente por plataformas internacionais como Shein, AliExpress, Shopee e Temu. Ao mesmo tempo, empresas brasileiras do setor de vestuário e bens de consumo observam um novo aumento da concorrência com produtos importados de baixo custo.
Mais do que uma discussão tributária, o tema revela como o comércio eletrônico global continua redesenhando as regras da competição no varejo.
Importações voltaram a crescer rapidamente
Segundo dados da Receita Federal, analisados pelo BTG Pactual e divulgados pelo Valor Econômico e pela Exame, o primeiro mês completo após o fim da tributação registrou uma forte recuperação das compras internacionais de baixo valor. Em junho de 2026:
o volume financeiro das importações pelo programa Remessa Conforme cresceu 40% em relação a maio;
na comparação com abril, último mês completo com a cobrança do imposto federal, o avanço foi de 74%;
em relação a junho de 2025, o crescimento chegou a 101%, movimentando aproximadamente R$ 2,6 bilhões em importações de pequeno valor.
Os números indicam uma reação praticamente imediata do consumidor às mudanças tributárias.
O consumidor voltou a comprar no exterior
Durante o período em que vigorou a chamada "taxa das blusinhas", produtos importados perderam parte da competitividade em relação ao varejo nacional.
Com a retirada da cobrança do imposto federal para encomendas de até US$ 50 — mantendo apenas a incidência do ICMS — muitos itens voltaram a apresentar preços significativamente mais baixos.
Para o consumidor, fatores como variedade, preço e acesso a produtos exclusivos continuam sendo decisivos. A facilidade proporcionada pelos marketplaces internacionais, aliada à logística cada vez mais eficiente, favorece essa retomada das compras.
O impacto chega diretamente ao varejo brasileiro
A recuperação das importações preocupa principalmente empresas dos segmentos de:
moda;
acessórios;
utilidades domésticas;
eletrônicos;
beleza;
artigos para casa.
Segundo análise do Citi, obtida pelo Valor Econômico, o aumento das importações pode pressionar empresas brasileiras listadas na Bolsa, especialmente aquelas mais expostas ao setor de vestuário.
A preocupação não está apenas na perda de vendas. Produtos importados de baixo custo dificultam a manutenção das margens e ampliam a necessidade de promoções para preservar competitividade.
A concorrência deixou de ser apenas nacional
O avanço das plataformas globais mudou definitivamente o ambiente competitivo. Hoje, uma pequena loja brasileira não disputa apenas espaço com o comércio da cidade vizinha.
Ela compete com vendedores da China, Estados Unidos e diversos outros mercados. Essa transformação exige uma mudança de posicionamento. Competir exclusivamente por preço tornou-se cada vez mais difícil. O diferencial passa a estar na experiência oferecida ao cliente.
O que o e-commerce brasileiro pode fazer?
Embora a concorrência internacional tenha aumentado, existem vantagens competitivas que permanecem nas mãos das empresas nacionais. Entre elas:
Entrega mais rápida
Produtos nacionais podem ser entregues em poucos dias — ou até no mesmo dia — dependendo da operação logística.
Atendimento próximo
Trocas, suporte e relacionamento continuam sendo diferenciais importantes.
Pós-venda
Garantias, assistência técnica e canais de atendimento geram confiança.
Produção personalizada
Empresas brasileiras conseguem desenvolver produtos adaptados ao mercado local com maior velocidade.
Construção de marca
Consumidores valorizam empresas com propósito, identidade e relacionamento consistente.
O consumidor ficou ainda mais racional
O retorno das importações não significa que todos os consumidores abandonarão o varejo nacional.
Na prática, eles passaram a comparar mais. Preço continua sendo importante.
Mas fatores como prazo de entrega, confiança, política de devolução e reputação da loja também influenciam a decisão.
Segundo pesquisas da PwC, experiência de compra e confiança permanecem entre os principais fatores de fidelização no varejo moderno.
Isso significa que competir apenas pelo menor preço pode não ser suficiente.
O desafio para a indústria brasileira
Entidades da indústria manifestaram preocupação com a mudança tributária.
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) argumenta que a redução da tributação amplia a vantagem competitiva dos fabricantes estrangeiros, especialmente em setores intensivos em mão de obra, como o têxtil e o de confecção.
Por outro lado, representantes das plataformas internacionais afirmam que a medida devolve poder de compra ao consumidor e estimula a concorrência. O debate permanece aberto.
O comércio eletrônico continuará cada vez mais global
Independentemente das mudanças tributárias futuras, uma tendência parece consolidada.
Consumidores brasileiros passaram a enxergar marketplaces internacionais como parte natural da jornada de compra.
A facilidade para comparar preços, realizar pagamentos e acompanhar entregas tornou as fronteiras comerciais cada vez menos relevantes.
Nesse contexto, empresas nacionais precisam construir vantagens que não dependam apenas da tributação.
O que essa mudança ensina ao e-commerce?
A retomada das importações reforça alguns aprendizados importantes:
preço continuará sendo um fator decisivo;
logística eficiente tornou-se diferencial competitivo;
construção de marca gera proteção contra concorrência baseada apenas em custo;
experiência do cliente passa a valer tanto quanto o produto;
inovação constante será essencial para manter competitividade.
O comércio eletrônico brasileiro entra em uma nova fase, em que competir com plataformas globais deixa de ser uma exceção e passa a fazer parte da rotina.
As empresas que conseguirem transformar proximidade, agilidade, confiança e experiência em valor percebido terão mais condições de crescer, mesmo em um ambiente com maior presença de produtos importados.
No fim, o verdadeiro diferencial não estará apenas no preço, mas na capacidade de entregar uma experiência que o consumidor considere difícil de substituir.
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