Crise dos Correios: greve, reestruturação e desafios financeiros agitam o maior operador postal do Brasil

LOGÍSTICA

Redação

1/2/20263 min read

Os Correios enfrentam um dos momentos mais turbulentos de sua história recente, combinando uma crise financeira profunda com mobilização dos trabalhadores, paralisações em vários estados e um plano de reestruturação abrangente que promete transformar a estatal nos próximos anos.

Déficits bilionários e reestruturação em três fases

A situação financeira da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT) se agravou em 2025, com prejuízo acumulado superior a R$ 6 bilhões nos primeiros nove meses do ano e um patrimônio líquido negativo que ultrapassa os R$ 10 bilhões.

Para enfrentar esse cenário, a direção da estatal apresentou um plano de reestruturação para o período 2025-2027, dividido em três fases:

  • Recuperação de liquidez de curto prazo — com empréstimo de R$ 12 bilhões junto a grandes bancos e aval do Tesouro Nacional para reforçar o caixa.

  • Reorganização e modernização de médio prazo — estabelecendo metas de produtividade, revisão de planos de previdência e benefícios, e fechamento de unidades deficitárias.

  • Revisão estrutural de longo prazo — incluindo a contratação de consultoria externa para avaliar possíveis mudanças no modelo societário da empresa.

Como parte das medidas imediatas, a estatal anunciou o fechamento de cerca de 1 000 agências deficitárias e a oferta de Programa de Demissão Voluntária (PDV) para até 15 mil funcionários até 2027, com a expectativa de gerar economia anual superior a R$ 2,1 bilhões.

A companhia também busca vender imóveis não operacionais e revisar benefícios como o plano de saúde Postal Saúde, com estimativa de corte de custos adicionais.

Apesar das dificuldades, a direção dos Correios descarta, por enquanto, a privatização total, afirmando que a reestruturação busca soluções que possam incluir parcerias societárias ou transformação em empresa de economia mista no futuro.

Greve e tensão com os trabalhadores

Paralelamente à crise financeira, a categoria de trabalhadores dos Correios intensificou sua mobilização. Desde meados de dezembro, funcionários em pelo menos nove estados — incluindo São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Paraná e Santa Catarina — iniciaram greve por tempo indeterminado, motivados pela insatisfação com a proposta de acordo coletivo da empresa.

Sindicalistas reivindicam reajuste salarial compatível com inflação, manutenção de benefícios e garantias sobre planos de saúde, além de uma postura mais negociadora da direção da estatal. Em resposta, os Correios informaram que as agências continuam funcionando e que adotaram medidas contingenciais para manter os serviços essenciais, mantendo cerca de 90% do efetivo trabalhando em meio à paralisação.

Os impasses nas negociações são acompanhados por mediação do Tribunal Superior do Trabalho (TST), que busca um acordo coletivo de trabalho de dois anos para evitar que o conflito se agrave ainda mais — com audiência e possível dissídio coletivo programados para serem definidos judicialmente.

Impactos operacionais e no mercado

A combinação de crise financeira e greve tem reflexos diretos nos serviços prestados pela estatal. Usuários e empreendedores relatam atrasos generalizados nas entregas, com pacotes parados em centros de distribuição sem atualização de status e prazos cada vez mais longos.

Esses problemas operacionais têm impacto especialmente em períodos de alta demanda — como o fim de ano — quando o volume de encomendas tradicionalmente explode, pressionando ainda mais uma estrutura já desgastada. A reputação da empresa em plataformas de avaliação ao consumidor também sofreu queda significativa nos últimos meses, refletindo a insatisfação dos usuários.

Crise estrutural e debate sobre modelo de negócio

Especialistas em economia e gestão pública apontam que os desafios dos Correios não são apenas conjunturais, mas estruturais. A combinação de folha de pagamento robusta, déficit recorrente e perda de mercado em segmentos como remessas internacionais e logística privada expõe fragilidades que se arrastam há anos sem soluções profundas.

O plano de reestruturação tenta conciliar medidas de ajuste com a missão constitucional da empresa, que inclui a universalização do serviço postal em todos os municípios brasileiros — um compromisso que pesa sobre as finanças, especialmente em áreas de baixa demanda e alto custo logístico.

O que vem pela frente

Com os desafios ainda longe de serem totalmente resolvidos, os próximos meses serão decisivos para os Correios. O sucesso do plano de recuperação — incluindo a captação de recursos adicionais e o andamento das negociações trabalhistas — será crucial para garantir a continuidade dos serviços e a manutenção de empregos.

Enquanto isso, a crise expõe um debate mais amplo sobre o papel de empresas estatais em mercados competitivos, o equilíbrio entre missão pública e sustentabilidade financeira, e a necessidade de modelos de negócio modernos em um setor que enfrenta competição intensificada por operadores privados.


Nota: Em comunicado a imprensa, os Correios informou que o movimento grevista foi suspenso após audiência de dissidio realizado pelo TST em 30/12/2025

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