IA vai redesenhar margens e valor no setor de tecnologia — e o e-commerce precisa se preparar para a nova “precificação por resultado”

TECNOLOGIAS

Redação

3/16/20264 min read

a cell phone sitting on top of a laptop computer
a cell phone sitting on top of a laptop computer

A era “IA-first” não muda só produtos: muda quem captura lucro na cadeia

A inteligência artificial (IA) deixou de ser um diferencial e passou a ser o novo “sistema operacional” da competitividade em tecnologia. O impacto, porém, não se limita a automação e produtividade: ele mexe no que realmente sustenta empresas — margens, modelos de entrega, precificação e valuation.

Um relatório citado pelo E-Commerce Brasil, da Bain & Company, é direto: provedores de serviços de tecnologia que revisarem seus modelos de oferta, entrega e precificação podem crescer entre 8% e 10%, preservar/expandir margens e até elevar seus múltiplos de receita em até 3,5 vezes. Por outro lado, quem insistir no modelo tradicional corre o risco de perder 5 a 7 pontos percentuais de margem EBIT, ver receita encolher em 30% ou mais e sofrer uma queda de 45% a 50% no valor em um horizonte de cinco anos. (Fonte: Bain & Company, via E-Commerce Brasil.)

Para o ecossistema do e-commerce — plataformas, integradores, martechs, ERPs, CRMs, logística tech, fintechs — isso representa uma virada: IA não é mais só feature. É o motor de redefinição do “quanto vale” e “quem fica com a margem”.


A nova economia de tecnologia: mais demanda, mas com cobrança por eficiência e valor

O paradoxo é que, ao mesmo tempo em que a IA pressiona margens (porque automatiza trabalho e “commoditiza” entregas), ela também cria novas frentes de demanda — especialmente em:

modernização de legados
operações de dados
transformação de plataformas
design/infra de chips e computação
soluções IA-first (Fonte: Bain & Company, via E-Commerce Brasil.)

E o investimento global acompanha: a Gartner estimou que o gasto mundial com GenAI pode chegar a US$ 644 bilhões em 2025 (+76,4% vs. 2024) — com um dado que muda a leitura do mercado: cerca de 80% do spending em 2025 tende a ir para hardware (servidores, dispositivos e infraestrutura). (Fonte: Gartner.)

Leitura prática: a disputa de margem se desloca. Em várias categorias, a margem pode migrar do “serviço humano” para infra, plataformas, dados e propriedade do fluxo.


Por que as margens estão sob pressão? O “modelo por hora” está quebrando

O relatório citado pela Bain aponta que descontos para fechar contratos e competição agressiva tendem a corroer EBIT quando empresas mantêm abordagens convencionais.

O que está por trás disso:

1) IA reduz esforço — e o cliente passa a questionar preço
Se antes “tempo e equipe” justificavam o contrato, agora parte do trabalho é automatizável. Resultado: o cliente pressiona preço, pede mais escopo, e a margem some.

2) “Feature de IA” vira commodity
Quando todo software “ganha IA”, o diferencial não é ter IA — é entregar resultado mensurável com IA.

3) Custos de infraestrutura e talento especializado sobem
Com a corrida por modelos, dados e GPUs, a pressão de custos migra para infraestrutura e competências raras.

E isso já aparece em decisões corporativas: a Block, por exemplo, anunciou cortes de milhares de funcionários em um movimento ligado a uma reestruturação com IA, e o mercado reagiu valorizando a tese de eficiência e margem. (Fonte: Reuters.)


A virada de valor: de “entregar tecnologia” para “entregar impacto”

Duas evidências ajudam a entender o momento:
A Deloitte, na edição 2026 do State of AI in the Enterprise, aponta que empresas estão migrando de experimentação para integração da IA no core do negócio — o que aumenta a cobrança por valor real, governança e mudança de processos. (Fonte: Deloitte AI Institute.)

A KPMG, no Global Tech Report 2026, mostra que 74% dizem que seus casos de uso de IA geram valor, mas apenas 24% afirmam alcançar ROI em múltiplos casos de uso — sinal claro de que “fazer piloto” não garante captura de valor em escala. (Fonte: KPMG.)

Tradução para o e-commerce: a pergunta que vai definir fornecedores e contratos em 2026 não é “você tem IA?” — é “quanto você melhora minha conversão, meu CAC, minha ruptura, meu prazo, minha recompra, minha margem?”


O que muda para o e-commerce: contratos, fornecedores e estratégia de stack

A redefinição de margens no setor de tecnologia afeta diretamente como o varejo e os sellers vão comprar e operar tecnologia.

1) Precificação por valor vai substituir “licença + serviços” em muitos casos
A Bain recomenda precificação atrelada ao valor gerado e go-to-market mais consultivo.
Isso tende a crescer em:
ferramentas de CRM/retention (pós-venda, recompra)
personalização e recomendação
previsão de demanda e abastecimento
automação de atendimento e operações

2) Integração e dados viram o “centro” da margem
Se a IA depende de dados confiáveis, quem domina integração, qualidade e governança passa a capturar mais valor. Isso pode aumentar a relevância de plataformas e parceiros capazes de unificar:
catálogo e estoque
pedidos e logística
comportamento e CRM
custos e margem por SKU/canal

3) A barra de performance sobe: “IA-first” exige revisão de processo
A Deloitte reforça que valor vem quando a IA entra no fluxo e muda o trabalho.
Ou seja: comprar ferramenta sem redesenhar processo vira custo — não resultado.


Recomendações práticas para profissionais de e-commerce

1) Reescreva o seu “briefing de tecnologia” em linguagem de margem
Para cada solução, defina 3 métricas de impacto:
receita (conversão, ticket, recompra)
custo (CAC, atendimento, logística, devolução)
risco (fraude, ruptura, SLA)

2) Exija prova de valor: piloto com métrica + governança
Use pilotos curtos, mas com:
baseline claro
métrica de sucesso
plano de escala
dono do processo
(Alinhado ao gap KPMG: valor em pilotos não garante ROI em escala.)

3) Prepare contratos para o novo jogo
Se o mercado migrar para “valor gerado”, inclua:
SLAs de performance
critérios de qualidade de dados
cláusulas de evolução de modelo
transparência de custos de infraestrutura quando aplicável

4) Não subestime o impacto da infraestrutura
Se grande parte do investimento em GenAI vai para hardware, como sugere a Gartner, seu custo total pode crescer por infraestrutura, não por licença.
Planeje: cloud, data, segurança, compliance e integração.

Conclusão: a IA não “barateia” tecnologia — ela redistribui margens

A inteligência artificial está inaugurando uma nova equação: empresas de tecnologia que continuarem vendendo como antes podem perder margem, receita e valor; quem migrar para modelos IA-first, plataformas e precificação por resultado tende a crescer e capturar múltiplos maiores. (Fonte: Bain & Company, via E-Commerce Brasil.)

Para o e-commerce, a implicação é direta: o stack tecnológico vai ficar mais estratégico, os contratos mais exigentes e a diferença entre “ter ferramenta” e “ter resultado” vai aumentar. Em 2026, a vantagem competitiva não será “usar IA”.
Será comprar, integrar e operar IA para proteger margem — e gerar valor comprovável.


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