Magalu entra no Mercado Livre: quando dois concorrentes descobrem que cooperar também pode ser estratégia de crescimento
MARKETPLACE
Redação
9/11/202610 min read


Magazine Luiza passa a vender cerca de 27 mil produtos dentro do maior marketplace do Brasil, incluindo itens de KaBuM! e Época Cosméticos. A parceria revela uma mudança importante no varejo digital: em um mercado no qual conquistar audiência está mais caro, até grandes concorrentes começam a compartilhar vitrines, logística e infraestrutura em busca de escala e rentabilidade.
Durante anos, Magazine Luiza e Mercado Livre foram apresentados como adversários em uma das principais disputas do comércio eletrônico brasileiro. Cada companhia investiu bilhões para ampliar audiência, sellers, tecnologia, logística e frequência de compra em seu próprio ecossistema.
A partir de 2 de setembro de 2026, essa relação ganha uma nova camada.
O Magalu passa a vender produtos de estoque próprio dentro do Mercado Livre, em uma parceria que começa com aproximadamente 27 mil itens das marcas Magazine Luiza, KaBuM! e Época Cosméticos. O catálogo inclui categorias como móveis, eletrodomésticos, televisores, computadores, celulares, games, informática, cosméticos e perfumaria. As entregas continuarão sob responsabilidade da Magalog, operação logística do grupo brasileiro.
O movimento pode parecer contraditório à primeira vista. Por que uma companhia que possui marketplace próprio colocaria seus produtos dentro da plataforma de seu principal concorrente?
A resposta está em uma palavra que ganhou importância no comércio eletrônico brasileiro: escala.
Para o Magalu, o acordo abre acesso à gigantesca audiência do Mercado Livre sem exigir o mesmo investimento necessário para adquirir esses consumidores diretamente. Para o Mercado Livre, significa incorporar um sortimento relevante de produtos e marcas, especialmente em categorias nas quais a infraestrutura e a experiência logística do Magalu podem complementar suas próprias capacidades.
Mais do que uma parceria entre duas varejistas, portanto, o acordo ajuda a revelar como as fronteiras competitivas do e-commerce estão ficando menos rígidas.
Concorrente na plataforma, parceiro na distribuição
A operação começa com os produtos 1P do Magalu, ou seja, mercadorias pertencentes ao estoque próprio do grupo, e não produtos oferecidos pelos sellers de seu marketplace.
Segundo informações divulgadas pelas companhias e repercutidas pela Reuters, cerca de 27 mil itens serão disponibilizados inicialmente. A parceria é não exclusiva e segue outros acordos que o Magazine Luiza já estabeleceu com plataformas como Amazon, AliExpress, Americanas, Itaú Shopping e Livelo.
A estratégia evidencia uma mudança na maneira como o Magalu enxerga distribuição digital. Em vez de depender apenas do tráfego gerado pelos próprios canais, a empresa passa a levar seu estoque para onde o consumidor já está.
Frederico Trajano, CEO do Magazine Luiza, explicou ao NeoFeed que as fronteiras competitivas estão menos claras e que existe espaço para “cooperação e coopetição” entre grandes plataformas. O executivo também reconheceu a audiência e a liderança do Mercado Livre entre os principais players brasileiros.
É uma mudança significativa de mentalidade.
No modelo tradicional, conquistar o consumidor significava trazê-lo para dentro do próprio site ou aplicativo. Agora, a lógica pode ser outra: se o consumidor não vem até a sua plataforma, seus produtos podem ir até ele.
Três em cada quatro compradores podem ser novos clientes para o Magalu
A dimensão da oportunidade fica mais clara quando as audiências são comparadas.
Os canais digitais do Magazine Luiza possuem uma base próxima de 50 milhões de clientes, segundo informações da companhia divulgadas pela Reuters. Já o Mercado Livre encerrou o segundo trimestre de 2026 com 89,3 milhões de compradores únicos ativos em sua operação global, além de registrar 795 milhões de itens vendidos no período.
No Brasil, estudo do Instituto Retail Think Tank citado pelo NeoFeed estimou que o Mercado Livre liderou os marketplaces em 2025 com aproximadamente R$ 185 bilhões em GMV, enquanto o Magalu registrou R$ 44,3 bilhões e ocupou a terceira colocação, atrás também da Shopee.
Para o Magalu, portanto, estar dentro do Mercado Livre significa acessar consumidores que dificilmente seriam alcançados com o mesmo custo pelos canais próprios.
A própria companhia estima que três quartos dos consumidores que comprarem seus produtos dentro do Mercado Livre serão novos clientes para o grupo, segundo Frederico Trajano em entrevista ao NeoFeed.
Esse dado ajuda a explicar a racionalidade econômica do acordo.
Em um ambiente no qual diferentes plataformas disputam agressivamente a atenção do consumidor, adquirir tráfego ficou mais caro. Investimentos em mídia, promoções, frete e benefícios são necessários para convencer alguém a abrir determinado aplicativo ou visitar determinado e-commerce.
A alternativa é utilizar uma audiência que outro player já construiu.
O Magalu precisa voltar a crescer no online
Existe também uma necessidade bastante concreta por trás dessa estratégia.
Segundo os resultados do segundo trimestre citados pelo NeoFeed, as vendas das lojas físicas do grupo cresceram 10,3%, alcançando R$ 5,1 bilhões, enquanto as vendas do e-commerce recuaram 11,9%, para R$ 9,3 bilhões. As vendas totais diminuíram 5,1%, para R$ 14,5 bilhões.
O digital continua representando aproximadamente 70% do faturamento do Magalu, segundo Frederico Trajano.
Recuperar escala online, portanto, é uma questão estratégica.
O executivo afirmou ao NeoFeed que a audiência do comércio eletrônico está cada vez mais pulverizada e que o custo de aquisição de clientes aumentou diante da competição entre as plataformas. A expectativa do grupo é que os acordos com Amazon e Mercado Livre contribuam para uma retomada do crescimento online já no quarto trimestre.
Mas existe uma condição importante: crescimento precisa vir acompanhado de rentabilidade.
O Magalu afirma que não pretende aumentar vendas sacrificando margem e avalia que o custo envolvido no acordo com o Mercado Livre é mais atraente do que aquilo que gastaria para conquistar esses mesmos consumidores diretamente.
Essa talvez seja uma das principais lições do movimento para sellers de qualquer tamanho.
Nem sempre vender no canal próprio significa possuir o menor custo de aquisição.
O Mercado Livre também ganha — especialmente nos produtos pesados
Se a vantagem do Magalu está principalmente na audiência, o benefício para o Mercado Livre aparece no sortimento e na infraestrutura.
Fernando Yunes, vice-presidente executivo do Mercado Livre na América Latina e líder da companhia no Brasil, afirmou ao NeoFeed que os clientes da plataforma procuram justamente categorias nas quais o Magalu possui força. Entre elas estão produtos pesados, eletrônicos, games e informática, além de cosméticos.
Essa complementaridade fica particularmente interessante quando a conversa chega à logística.
O Mercado Livre construiu uma das maiores estruturas logísticas do comércio eletrônico brasileiro e consegue operar com extrema eficiência produtos pequenos e médios. Entregar uma geladeira, um fogão, um sofá ou um guarda-roupa, entretanto, exige outra configuração operacional.
É justamente uma área na qual o Magalu possui décadas de experiência.
Segundo o NeoFeed, a estrutura logística do grupo conta atualmente com 21 centros de distribuição, 175 unidades de cross-docking e 1.275 lojas funcionando como mini-hubs.
No primeiro momento, os produtos vendidos pelo Magalu dentro do Mercado Livre serão entregues pela própria Magalog. Mas a parceria pode avançar.
As empresas avaliam a possibilidade de utilizar a Magalog para realizar entregas de produtos de terceiros comercializados no Mercado Livre, especialmente itens pesados. As lojas físicas do Magalu também poderão, no futuro, funcionar como pontos de retirada e devolução para pedidos realizados na plataforma.
Se isso acontecer, a parceria deixará de ser apenas comercial.
Passará a envolver compartilhamento de infraestrutura.
Magalog começa a se transformar de custo interno em negócio
Esse ponto ajuda a entender outra transformação em andamento dentro do Magazine Luiza.
A Magalog foi construída originalmente para sustentar a operação do próprio grupo. Agora, o Magalu tenta transformá-la em uma empresa de serviços logísticos para o mercado.
Segundo Frederico Trajano, aproximadamente 30% da receita da Magalog já vem de operações realizadas fora do ecossistema do grupo. Entre seus clientes estão Samsung, O Boticário, Renner e até a Centauro, concorrente direta da Netshoes.
Dados divulgados pelo Mercado & Consumo mostram que a Magalog terminou 2025 com receita superior a R$ 3 bilhões e já atende mais de 100 clientes externos.
A lógica econômica é semelhante àquela utilizada por algumas das maiores empresas de tecnologia do mundo: construir uma infraestrutura para resolver um problema interno e, depois, transformá-la em serviço para terceiros.
Quanto mais volume passa pela rede logística, maior é a possibilidade de diluir custos fixos.
Nesse cenário, entregar pedidos de concorrentes pode deixar de parecer uma ameaça e passar a ser uma oportunidade de monetização.
A Amazon já faz parte dessa mesma estratégia
A entrada no Mercado Livre não é um movimento isolado.
Três meses antes, o Magalu já havia ampliado sua presença na Amazon. E essa parceria também está evoluindo.
Segundo o NeoFeed, a partir de outubro a Magalog deverá realizar entregas de produtos de terceiros vendidos na Amazon. A varejista também passará a receber um tratamento operacional próximo ao de estoque próprio dentro da plataforma, o que pode trazer benefícios como redução dos prazos de entrega e maior competitividade na Buy Box.
Antes disso, o grupo já havia firmado acordos com AliExpress, Americanas, Itaú Shopping e Livelo.
É uma estratégia que começa a ser chamada no setor de “mar aberto”: varejistas deixam de restringir seus produtos às próprias vitrines e passam a distribuí-los por diferentes marketplaces, inclusive aqueles com os quais competem diretamente.
A lógica se aproxima daquela adotada por grandes marcas de consumo.
Uma fabricante de eletrônicos não espera que todos os consumidores comprem em sua loja própria. Ela distribui produtos em diferentes varejistas.
O Magalu começa a aplicar essa mesma lógica ao comércio eletrônico.
O marketplace está deixando de ser destino para virar infraestrutura
Essa mudança revela algo maior sobre a evolução do e-commerce brasileiro.
Durante anos, grandes plataformas buscaram construir ecossistemas fechados. O objetivo era manter consumidor, vendedor, pagamento, publicidade e logística dentro da mesma estrutura.
Esses ecossistemas continuam importantes. Mas a competição está criando uma segunda dinâmica: as infraestruturas começam a se conectar.
O Magalu vende no Mercado Livre.
A Magalog entrega o pedido.
No futuro, uma loja física do Magazine Luiza pode receber a devolução de uma compra realizada na plataforma concorrente.
Ao mesmo tempo, o Magalu continua operando seu próprio marketplace e disputando consumidores com o Mercado Livre.
Competição e colaboração passam a existir simultaneamente.
É a chamada coopetição.
E ela tende a aparecer cada vez mais conforme as empresas percebem que determinadas estruturas possuem valor maior quando utilizadas em escala.
Para sellers, a estratégia traz uma lição importante sobre distribuição
O movimento de uma empresa do tamanho do Magalu também oferece um aprendizado para pequenos e médios sellers.
Durante muito tempo, negócios digitais foram incentivados a encontrar “o melhor canal”.
A evolução do mercado aponta para uma pergunta diferente: qual combinação de canais gera mais vendas com margem saudável?
Um seller pode possuir loja virtual própria, vender no Mercado Livre, Amazon, Shopee e Magalu, utilizar social commerce e, ao mesmo tempo, construir relacionamento direto com seus clientes.
Cada canal cumpre uma função.
Marketplace oferece audiência.
Loja própria oferece maior controle da experiência e relacionamento.
Redes sociais geram descoberta.
CRM aumenta recorrência.
O desafio deixa de ser escolher um único vencedor e passa a ser administrar essa distribuição de maneira rentável. Mas existe um cuidado importante.
Mais canais também significam maior complexidade operacional. Estoque, preço, catálogo, logística, atendimento e reputação precisam funcionar de maneira integrada.
A estratégia multicanal só gera escala quando existe estrutura para sustentá-la.
Preço e margem serão parte importante dessa equação
Uma das questões inevitáveis na entrada do Magalu no Mercado Livre envolve preço.
O mesmo produto poderá aparecer simultaneamente no site do Magazine Luiza, no Mercado Livre, na Amazon e em outras plataformas.
Segundo Frederico Trajano, o grupo trabalha com um preço-base comum entre os diferentes canais. Eventuais promoções realizadas pelos marketplaces deverão ser financiadas pelas próprias plataformas, sem comprometer a margem do Magalu.
Essa decisão toca em um dos problemas mais complexos da estratégia omnichannel: conflito de canais.
Se uma empresa vende muito mais barato em determinado marketplace, pode enfraquecer sua própria loja. Se tenta manter preços artificialmente elevados fora do canal próprio, pode perder competitividade.
A solução passa por controlar margem, entender os custos específicos de cada plataforma e definir claramente o papel de cada canal dentro da estratégia comercial.
O Magalu não está desistindo dos canais próprios
Entrar no Mercado Livre também não significa que o Magazine Luiza esteja abandonando seu ecossistema.
Nos canais próprios, a estratégia passa por investir em menos produtos e mais curadoria, combinando especialização com ferramentas de inteligência artificial.
A visão apresentada por Trajano ao NeoFeed é que existem diferentes momentos de compra. Em algumas situações, o consumidor quer uma plataforma generalista com enorme variedade. Em outras, busca uma experiência mais especializada para encontrar determinado produto.
Os dois modelos podem coexistir.
Ao mesmo tempo, o grupo também começa a voltar a crescer fisicamente. Depois da abertura da primeira Galeria Magalu no fim de 2025, novas lojas e conversões para esse conceito estão sendo consideradas, além da possibilidade de unidades independentes de Época Cosméticos, KaBuM! e Netshoes.
É um contraste interessante.
Enquanto amplia a distribuição dentro dos maiores marketplaces do país, o Magalu também volta a olhar para lojas físicas.
Não é uma escolha entre online e offline.
É uma tentativa de estar presente em diferentes pontos da jornada.
O acordo Magalu e Mercado Livre mostra uma nova fase do e-commerce brasileiro
A parceria talvez seja mais simbólica do que os próprios 27 mil produtos inicialmente envolvidos.
Ela mostra que a maturidade do comércio eletrônico brasileiro está obrigando grandes empresas a reconsiderar conceitos tradicionais de concorrência.
O Mercado Livre continua disputando consumidores com o Magazine Luiza.
O Magazine Luiza continua operando um marketplace concorrente.
KaBuM! continua competindo em eletrônicos.
Netshoes poderá entrar posteriormente no acordo.
Nada disso desaparece.
O que muda é a compreensão de que competir em uma camada não impede colaborar em outra.
O Mercado Livre possui audiência.
O Magalu possui estoque, marcas, experiência em categorias relevantes, lojas físicas e uma infraestrutura logística particularmente forte em produtos pesados.
Juntos, podem gerar um volume que talvez fosse mais caro construir separadamente.
Para o ecossistema de e-commerce, o movimento deixa um sinal importante: em um mercado com consumidores distribuídos entre cada vez mais plataformas e custos crescentes de aquisição, distribuição pode se tornar mais importante do que tentar controlar sozinho todos os pontos de contato.
Talvez seja justamente por isso que uma das maiores varejistas digitais brasileiras decidiu colocar seus produtos dentro da vitrine de seu maior concorrente.
No novo e-commerce, vencer não significa necessariamente fazer tudo sozinho.
Às vezes, significa saber onde competir, onde cooperar e como usar a escala do outro para aumentar a própria.
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