Mercado Livre prepara megacomplexo logístico de 464 mil m² e acirra corrida pela entrega mais rápida no Brasil
LOGÍSTICA
Redação
9/16/20269 min read


Novo empreendimento em Campinas, em frente ao Aeroporto de Viracopos, será construído sob medida para o Mercado Livre e deve representar o maior contrato único de locação de galpões já realizado no país. Mais do que um recorde imobiliário, a operação mostra como a logística se tornou uma das principais armas na disputa entre Mercado Livre, Shopee, Amazon e outros gigantes do e-commerce.
A próxima grande batalha do comércio eletrônico brasileiro pode não acontecer dentro de um aplicativo, de uma campanha de mídia ou na disputa pelo menor preço. Ela está acontecendo em milhões de metros quadrados de galpões espalhados pelo país.
O Mercado Livre prepara um novo complexo logístico de 464 mil m² em Campinas, no interior de São Paulo, em frente ao Aeroporto Internacional de Viracopos. Segundo informações publicadas pelo Metro Quadrado e repercutidas pela MundoLogística, o empreendimento será desenvolvido pela BTS Properties no modelo built-to-suit, no qual o imóvel é construído especificamente para atender às necessidades operacionais do futuro ocupante.
Pelo tamanho, o projeto deverá representar o maior contrato único de locação de galpões já realizado no Brasil, superando os aproximadamente 220 mil m² ocupados pela Shopee em Guarulhos no início de 2026, operação que até então detinha essa posição. Mas o tamanho do empreendimento é apenas parte da história.
A movimentação acontece enquanto Mercado Livre, Shopee e Amazon aceleram investimentos para aproximar estoques dos consumidores. No segundo trimestre de 2026, o e-commerce respondeu por 77% da absorção bruta de condomínios logísticos no país, de acordo com levantamento da EREA citado pela MundoLogística. No mesmo período, a taxa nacional de vacância desses imóveis chegou a 5,7%, a menor da série histórica da consultoria iniciada em 2013.
O galpão, portanto, deixou de ser apenas o lugar onde a mercadoria fica armazenada. Ele se tornou parte da experiência de compra.
Por que o Mercado Livre escolheu Campinas
A localização do novo complexo ajuda a explicar a estratégia.
Campinas reúne acesso a algumas das principais rodovias do estado de São Paulo, proximidade com um dos maiores mercados consumidores do país, disponibilidade de mão de obra e conexão direta com o Aeroporto Internacional de Viracopos.
Segundo a MundoLogística, a região também apresenta uma diferença relevante no custo imobiliário. Dados da Cushman & Wakefield citados pela publicação apontam que o aluguel médio em Guarulhos chegou a R$ 42 por m² no segundo trimestre de 2026, enquanto em Campinas a média dos empreendimentos logísticos de alto padrão estava em aproximadamente R$ 22 por m², embora novos contratos já estejam se aproximando de R$ 30 por m².
A comparação ajuda a entender por que grandes operações começam a olhar além dos polos logísticos tradicionais da Grande São Paulo.
Guarulhos continua extremamente estratégico pela proximidade com a capital e pelo acesso às principais rodovias e ao aeroporto internacional. Mas existe um limite físico para expansão, especialmente quando empresas procuram centenas de milhares de metros quadrados em um único empreendimento.
Campinas oferece uma combinação diferente entre área disponível, infraestrutura, localização e custo.
O Mercado Livre já possui presença na cidade. Segundo dados da Newmark publicados pela MundoLogística, a companhia ocupa atualmente oito módulos no BTLG Log, totalizando quase 10 mil m². O novo empreendimento levará essa presença a outra escala.
464 mil m² revelam uma estratégia muito maior do que armazenar produtos
A dimensão do complexo chama atenção. Para efeito de comparação, 464 mil m² equivalem a aproximadamente 65 campos de futebol oficiais, considerando um campo de 105 por 68 metros.
A expectativa, segundo informações repercutidas pela MundoLogística, é que o empreendimento seja utilizado como uma grande operação de fulfillment, podendo também abastecer estruturas menores destinadas à última milha.
Essa arquitetura é fundamental para entender a logística moderna dos marketplaces.
Grandes centros de fulfillment concentram estoques de milhares de sellers e produtos. A partir deles, os pedidos podem ser processados, separados e encaminhados para estruturas mais próximas dos consumidores, que realizam as etapas finais da distribuição.
Quanto mais eficiente essa rede, menor pode ser a distância entre o clique no botão de compra e a chegada do pacote.
É justamente aí que logística e experiência do cliente se encontram.
Durante muito tempo, um prazo de entrega de vários dias era considerado normal no comércio eletrônico. Hoje, em determinadas regiões e categorias, o consumidor já encontra entregas no mesmo dia ou no dia seguinte.
Depois que esse padrão é estabelecido, dificilmente o cliente deseja voltar atrás.
Mercado Livre quer ampliar sua rede de fulfillment no Brasil
O megacomplexo de Campinas não é um investimento isolado.
O Mercado Livre está realizando uma das maiores expansões logísticas de sua história no Brasil. Segundo a MundoLogística, a companhia prevê abrir 14 novos centros de distribuição no modelo fulfillment em 2026, ampliando significativamente sua capacidade operacional no país.
O plano está inserido em uma estratégia ainda maior. A companhia anunciou R$ 57 bilhões em investimentos no Brasil em 2026, envolvendo logística, tecnologia e outras frentes do negócio. A expansão também deverá provocar um forte crescimento no quadro operacional. Segundo dados divulgados pela própria empresa e repercutidos pela MundoLogística, são previstas mais de 28 mil novas vagas apenas na área logística, levando a equipe desse segmento no Brasil de 49,8 mil pessoas em 2025 para mais de 78,1 mil até o fim de 2026.
Campinas está diretamente inserida nessa expansão, com previsão de aproximadamente 1,6 mil vagas logísticas no plano anunciado pela companhia.
Outros projetos ajudam a mostrar o tamanho da movimentação. Em Guarulhos, o Mercado Livre realizou duas grandes locações no segundo trimestre, uma de 64 mil m² e outra de 56 mil m², segundo levantamento da Binswanger Brazil. Em Jacareí, a empresa prepara um centro de distribuição com investimento estimado em aproximadamente R$ 500 milhões, em uma área total de 300 mil m², dos quais cerca de 140 mil m² serão construídos.
Em Santo André, a companhia também alugou 90% de um centro logístico da Goodman com aproximadamente 60 mil m² e estrutura destinada principalmente às operações de última milha.
Não se trata, portanto, de construir um grande galpão.
Trata-se de construir uma malha logística cada vez mais densa.
Shopee e Mercado Livre já dominam as maiores locações
A disputa fica ainda mais evidente quando se observa quem está ocupando os novos galpões brasileiros.
Levantamento da Binswanger Brazil publicado pelo InfoMoney mostrou que Mercado Livre e Shopee foram responsáveis por nove das dez maiores locações de galpões logísticos realizadas no segundo trimestre de 2026.
Outro indicador mostra a intensidade dessa demanda. De acordo com a mesma pesquisa, 70% dos empreendimentos logísticos de padrão A e A+ previstos para serem entregues no terceiro trimestre já estavam pré-locados. No trimestre anterior, esse percentual era de 39%.
A JLL chegou a uma conclusão semelhante ao analisar o primeiro semestre. Dados divulgados pela consultoria e repercutidos pela Forbes apontaram uma taxa de vacância de apenas 5,5% nos galpões logísticos de alto padrão, o menor nível desde o início da série histórica analisada.
A consequência é uma verdadeira corrida por localização.
Quem garantir primeiro os melhores imóveis próximos aos grandes centros consumidores pode construir uma vantagem difícil de reproduzir rapidamente.
A Shopee também está acelerando sua infraestrutura
O Mercado Livre não está sozinho nessa disputa.
A Shopee ampliou sua estrutura de 16 para 26 centros de distribuição em 2026, segundo levantamento da MundoLogística. A rede reúne 21 unidades de cross-docking e cinco centros de fulfillment, além de mais de 200 hubs de primeira e última milha e mais de 5 mil Agências Shopee.
A companhia avançou especialmente para novas regiões, com centros de fulfillment em estados como Goiás, Rio Grande do Sul e Minas Gerais, além de novas operações de cross-docking no Espírito Santo, Paraná e Ceará.
Foi justamente a Shopee que havia estabelecido o recorde anterior de locação ao ocupar aproximadamente 220 mil m² em Guarulhos.
Poucos meses depois, o Mercado Livre prepara um empreendimento com mais do que o dobro dessa área.
Essa sucessão de recordes mostra a velocidade com que a competição logística está avançando.
Amazon também aproxima estoque do consumidor
A Amazon segue a mesma direção.
Em maio de 2026, a companhia inaugurou, em parceria com a DHL Supply Chain, um centro de distribuição de aproximadamente 30 mil m² em Salvador, destinado ao atendimento da Bahia e de Sergipe. Segundo a MundoLogística, a estrutura possui capacidade inicial para processar até 100 mil pacotes por dia.
A estratégia das três empresas possui diferenças operacionais, mas converge para o mesmo objetivo: colocar produtos cada vez mais próximos do consumidor.
Quanto menor a distância física entre estoque e demanda, maiores as possibilidades de reduzir prazo e custo da entrega.
Isso transforma o mapa logístico do Brasil.
A concentração histórica no eixo São Paulo e Sudeste começa a dividir espaço com centros regionais que atendem capitais e mercados consumidores específicos.
A tendência é que a expansão continue para outras regiões conforme o volume de pedidos justifique operações locais.
O e-commerce está redesenhando o mercado imobiliário brasileiro
A consequência dessa corrida ultrapassa o setor de tecnologia e varejo.
O comércio eletrônico se tornou um dos principais motores do mercado imobiliário logístico.
Segundo a EREA, 77% de toda a absorção bruta de condomínios logísticos no segundo trimestre de 2026 veio do e-commerce. Em regiões ainda mais próximas da capital paulista, a concentração é igualmente expressiva. No primeiro trimestre, o setor respondeu por 74% das locações realizadas no chamado Raio 30 de São Paulo e por 92% no Raio 15.
São Paulo ainda concentra 48% do estoque nacional de galpões classe A e A+, o equivalente a 17,6 milhões de m², segundo a Binswanger Brazil. A taxa de vacância no estado estava em 5%, enquanto o preço pedido chegava a aproximadamente R$ 35 por m².
Mas a escassez de grandes áreas próximas aos principais polos começa a estimular uma expansão territorial.
Campinas é um exemplo. Jacareí é outro. E novos centros em diferentes estados mostram que a logística do e-commerce está gradualmente formando uma rede nacional mais descentralizada.
Até a Temu começa a participar desse movimento. Com a expansão de vendedores locais no Brasil, a plataforma passa a depender menos exclusivamente de remessas internacionais e aumenta sua necessidade de estruturas próximas aos consumidores, segundo avaliação da Sort Investimentos divulgada pela MundoLogística.
Entrega rápida virou produto
Existe uma razão comercial por trás de todos esses investimentos.
Prazo de entrega deixou de ser apenas uma característica logística e passou a fazer parte do produto vendido pelo marketplace.
Quando duas lojas oferecem o mesmo item por preços semelhantes, receber amanhã em vez de daqui a cinco dias pode definir onde a compra será realizada.
Isso muda a matemática competitiva.
O marketplace que possui o produto armazenado mais próximo do consumidor consegue reduzir quilômetros percorridos, aumentar a previsibilidade, melhorar a experiência e, em determinadas situações, reduzir custos.
Por isso, a localização do estoque passa a ser tão estratégica quanto preço, mídia ou tecnologia.
Um algoritmo pode identificar qual produto o consumidor deseja. Uma campanha pode convencê-lo a comprar. Mas alguém ainda precisa colocar aquele produto fisicamente na porta da casa. E essa última etapa exige infraestrutura real.
Para os sellers, fulfillment deixa de ser apenas uma questão operacional
A expansão logística dos marketplaces também traz implicações diretas para vendedores.
Quanto mais Mercado Livre, Shopee e Amazon investem em fulfillment, maior tende a ser a importância de planejar estoque de acordo com esses ecossistemas.
O seller precisa decidir quanto enviar para cada centro, quais produtos possuem giro suficiente para permanecer armazenados, quais regiões concentram demanda e qual impacto o prazo de entrega possui sobre sua conversão. Isso exige uma mudança de mentalidade.
Estoque não deve ser analisado apenas como mercadoria parada esperando uma venda. A localização desse estoque pode influenciar diretamente a capacidade de vender.
Um produto disponível em um centro de fulfillment próximo ao comprador pode receber uma promessa de entrega mais competitiva do que o mesmo produto despachado diretamente da sede de uma pequena empresa localizada a centenas de quilômetros.
Para PMEs, utilizar a infraestrutura dos grandes marketplaces pode funcionar como uma maneira de acessar uma capacidade logística que dificilmente seria economicamente viável construir individualmente.
A próxima disputa do e-commerce também será territorial
O novo complexo de 464 mil m² do Mercado Livre em Campinas impressiona pelo tamanho, mas seu significado é ainda maior.
Ele representa uma mudança na própria geografia do comércio eletrônico.
A disputa entre marketplaces não acontece mais apenas por usuários, sellers, publicidade ou participação de mercado. Existe uma corrida paralela por terrenos, galpões, centros de distribuição, aeroportos, rodovias e posições estratégicas próximas aos consumidores.
O Mercado Livre quer reduzir a distância entre produto e comprador.
A Shopee está fazendo o mesmo.
A Amazon amplia sua infraestrutura regional.
E a entrada de novos players tende a aumentar ainda mais a pressão sobre os melhores ativos logísticos.
Para o ecossistema de e-commerce, a mensagem é clara: logística deixou definitivamente de ser apenas o que acontece depois da venda. Ela passou a ser uma das razões pelas quais a venda acontece.
O novo megacomplexo de Campinas materializa essa transformação.
Em um comércio eletrônico no qual plataformas possuem cada vez mais tecnologia, preços semelhantes e milhões de produtos disponíveis, a próxima vantagem competitiva pode ser extremamente física: ter o produto certo, no lugar certo, antes dos concorrentes.
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