Pontos de recebimento já representam 39% dos envios das PMEs: a logística do e-commerce está saindo dos centros de distribuição e chegando ao comércio de bairro
LOGÍSTICA
Redação
9/2/202610 min read


Uso de pontos PUDO por pequenas e médias empresas cresceu 53% no primeiro semestre de 2026. O avanço mostra como lojas, farmácias e outros estabelecimentos físicos começam a formar uma nova infraestrutura para a última milha do e-commerce brasileiro.
A logística do e-commerce brasileiro está passando por uma transformação que pode ser percebida longe dos grandes centros de distribuição.
Uma farmácia, loja de conveniência ou estabelecimento comercial localizado perto da casa do consumidor pode assumir uma nova função: receber encomendas de vendedores, concentrar pacotes para transportadoras e, dependendo da operação, permitir retiradas e devoluções.
São os chamados PUDOs — Pick Up and Drop Off points. E esse modelo está crescendo rapidamente entre pequenas e médias empresas brasileiras.
Segundo a 5ª edição do Mapa da Logística, levantamento da Loggi com dados do primeiro semestre de 2026, o volume de envios realizados por PMEs utilizando pontos de recebimento cresceu 53% em relação ao mesmo período de 2025.
O modelo já responde por 39% das postagens realizadas pelas pequenas e médias empresas analisadas, enquanto a coleta tradicional representa os outros 61%.
O dado é importante porque revela algo maior do que simplesmente uma nova maneira de despachar uma caixa.
Ele mostra que a infraestrutura logística do comércio eletrônico está se tornando mais distribuída, acessível e compatível com a realidade de pequenos vendedores.
O que são os pontos PUDO?
PUDO é a abreviação de Pick Up and Drop Off.
O conceito utiliza uma rede de estabelecimentos físicos credenciados para funcionar como pontos intermediários entre consumidores, vendedores e operadores logísticos.
Dependendo da configuração da rede, supermercados, farmácias, lojas de conveniência e outros negócios podem receber encomendas para retirada ou aceitar produtos destinados a postagens, trocas e devoluções.
Também existem variações como lockers e o tradicional click & collect das próprias redes varejistas.
Para o consumidor, a principal vantagem está na flexibilidade.
Para a transportadora, existe a possibilidade de concentrar volumes em determinados endereços.
E para o pequeno vendedor, surge uma alternativa à necessidade de permanecer esperando uma coleta em seu endereço.
É justamente essa última característica que ajuda a explicar o crescimento do modelo entre as PMEs.
De 33% para 39% em poucos meses
A velocidade da mudança fica mais evidente quando os números atuais são comparados aos resultados anteriores do Mapa da Logística.
No balanço de 2025, os pontos de recebimento representavam 33% das operações das PMEs analisadas pela Loggi, enquanto a coleta tradicional ainda concentrava 67%.
Naquele momento, o uso de PUDOs já havia crescido sete vezes em comparação com 2024.
Agora, no primeiro semestre de 2026, a participação alcançou 39%.
Isso significa que, dentro da base analisada pela Loggi, quase quatro em cada dez postagens das pequenas e médias empresas já passam pelos pontos de recebimento.
Não se trata mais, portanto, de uma solução experimental.
O modelo começa a ocupar uma parcela relevante da operação logística dos pequenos negócios.
Por que o modelo faz tanto sentido para as PMEs?
Imagine duas operações. De um lado, uma grande varejista despachando milhares de pedidos diariamente a partir de um centro de distribuição.
Do outro, um pequeno e-commerce que realiza 15, 30 ou 50 pedidos em determinado dia.
Para a primeira empresa, manter coletas programadas faz parte da infraestrutura operacional.
Para a segunda, nem sempre.
O empreendedor pode precisar conciliar estoque, atendimento, vendas, marketing e expedição — muitas vezes com uma equipe reduzida.
Um ponto de recebimento permite que ele prepare seus pedidos e os entregue em um estabelecimento próximo, onde diferentes volumes podem ser posteriormente consolidados pela transportadora.
Essa flexibilidade ajuda a compreender por que o PUDO está avançando tão rapidamente justamente nesse grupo.
O próprio levantamento da Loggi interpreta o crescimento como parte de uma diversificação das operações logísticas adotadas pelas PMEs.
Mas o impacto potencial vai além da postagem
O conceito fica ainda mais interessante quando analisado pela perspectiva da última milha.
Uma das ineficiências tradicionais da entrega domiciliar acontece quando a transportadora chega ao endereço e não encontra alguém disponível para receber o pacote.
A operação pode exigir uma nova tentativa, aumentando quilômetros percorridos, tempo e custo.
Pontos de retirada alteram essa dinâmica.
Em vez de dezenas de entregas necessariamente acontecerem em dezenas de residências diferentes, parte dos pedidos pode ser concentrada em locais específicos.
A Loggi destaca que essa consolidação pode diminuir rotas e tentativas frustradas e reduzir custos relacionados à última milha.
É a aplicação de um princípio conhecido da logística: consolidar volume para ganhar eficiência.
A logística reversa também pode mudar
Existe outro problema importante do e-commerce que os PUDOs podem ajudar a resolver: trocas e devoluções.
No modelo tradicional, devolver um produto pode exigir que o consumidor aguarde uma coleta ou se desloque até algum ponto específico definido pelo operador.
Com uma rede suficientemente capilarizada, estabelecimentos próximos podem funcionar como locais de drop off.
O consumidor solicita a devolução, prepara a encomenda e entrega o pacote em um ponto credenciado, que posteriormente é atendido pela transportadora.
A possibilidade é especialmente relevante para categorias nas quais trocas fazem parte naturalmente da jornada, como moda e calçados.
Assim, o PUDO deixa de atuar apenas no caminho entre vendedor e consumidor.
Pode participar também do percurso inverso.
Shopee já possui milhares de pontos espalhados pelo Brasil
O avanço não está restrito às operações da Loggi.
Grandes empresas do ecossistema vêm construindo suas próprias redes.
A Shopee anunciou em 2025 a implementação de mais de 2 mil pontos de retirada e logística reversa no Brasil, utilizando sua estrutura de Agências Shopee.
Na época, a rede estava presente em mais de 400 cidades e a companhia pretendia ampliar sua cobertura para 1.000 municípios.
Os próprios estabelecimentos que já recebiam produtos de vendedores brasileiros passaram a desempenhar também outras funções dentro da jornada logística.
Outros operadores vêm desenvolvendo iniciativas semelhantes.
A Total Express, por exemplo, mantém o Total Points, rede de pontos credenciados voltada a coleta, entrega e devolução de encomendas.
O que começa a surgir é uma infraestrutura física distribuída que complementa a logística tradicional.
A loja física ganha uma nova função na economia digital
Existe uma consequência interessante nesse movimento.
Durante muito tempo, e-commerce e comércio físico foram tratados quase como adversários.
Agora, uma pequena loja pode participar do crescimento das compras online mesmo sem vender seus próprios produtos pela internet. Ela pode funcionar como infraestrutura logística.
O modelo cria a possibilidade de monetizar um ativo que o estabelecimento já possui: localização.
Uma loja posicionada em um bairro residencial, próxima a estações de transporte, avenidas movimentadas ou áreas comerciais pode ser logisticamente valiosa.
Reportagem publicada pelo InfoMoney em julho mostrou justamente o avanço dessa atividade como fonte complementar de receita para pequenos estabelecimentos parceiros de marketplaces e operadores logísticos.
Além da remuneração relacionada ao serviço, existe outro benefício potencial: circulação.
Pessoas que talvez nunca entrassem naquele estabelecimento passam pelo local para retirar ou devolver uma encomenda.
O desafio do lojista passa a ser transformar esse fluxo em relacionamento e eventualmente em consumo.
O e-commerce brasileiro também está ficando menos concentrado
O crescimento dos PUDOs acontece paralelamente a outra transformação importante apontada pelo Mapa da Logística: a descentralização geográfica do comércio eletrônico.
Entre as PMEs analisadas, aproximadamente 40% dos pacotes têm origem em São Paulo.
Nas grandes empresas, a participação paulista supera 67%.
Santa Catarina representa 15% das origens entre PMEs, contra 7% entre grandes negócios. No Paraná, são 9% contra 5%; em Minas Gerais, 9% contra 4%.
O dado sugere que pequenos vendedores estão distribuídos de maneira mais pulverizada pelo território brasileiro. E isso muda a logística.
Santa Catarina e Rio Grande do Sul puxam crescimento
O primeiro semestre também mostrou avanço importante de diferentes mercados regionais.
Segundo a 5ª edição do Mapa da Logística, Santa Catarina registrou crescimento de 24% nos envios na comparação com o primeiro semestre de 2025. Na sequência aparecem:
Rio Grande do Sul: +23%
Paraná: +17%
Distrito Federal: +10%
Ceará: +4%.
Quando analisamos apenas a distribuição das PMEs, o Sul responde por aproximadamente 26% dos envios, enquanto Centro-Oeste representa 6% e Nordeste, 4%.
É mais um sinal de que vender pela internet já não é uma atividade concentrada apenas nos grandes centros tradicionais.
Quanto mais descentralizado o e-commerce, mais importante se torna a capilaridade
Esse ponto ajuda a explicar por que os PUDOs podem ganhar importância nos próximos anos.
Um comércio eletrônico concentrado em poucos grandes centros de distribuição permite construir uma logística igualmente concentrada.
Um mercado formado por milhares de pequenos vendedores espalhados por diferentes cidades exige outra configuração. A rede precisa chegar até eles.
Em vez de construir estruturas próprias em cada localidade, operadores podem utilizar infraestrutura já existente: estabelecimentos comerciais espalhados pelas cidades brasileiras.
É uma lógica semelhante à de uma rede distribuída.
Cada ponto individual é pequeno.
O valor está na soma da capilaridade.
O desafio continua sendo entregar rápido
Flexibilidade, entretanto, não elimina a pressão por velocidade.
O mesmo Mapa da Logística mostra que a operação analisada percorreu aproximadamente 17,5 milhões de quilômetros no primeiro semestre de 2026.
Mais de um terço dos pacotes chegou ao destino em até dois dias e metade foi entregue em até três dias, com cobertura superior a 5 mil cidades.
Isso mostra o tamanho do desafio.
O consumidor está comprando de empresas cada vez mais distribuídas geograficamente, mas continua esperando previsibilidade e rapidez.
Para uma PME, portanto, logística deixa de ser simplesmente a etapa que acontece depois da venda. Passa a fazer parte da própria proposta de valor.
PUDO também pode ajudar a reduzir o custo da última milha
A última milha é uma das etapas mais complexas da logística porque envolve levar milhares de encomendas até milhares de endereços diferentes.
Pontos de retirada oferecem uma alternativa interessante justamente porque permitem concentrar entregas.
Uma recomendação operacional apresentada pelo Mercado Pago é posicionar esses pontos em regiões de alta concentração de pedidos, utilizando os CEPs dos clientes para identificar onde existe demanda suficiente.
A lógica envolve consolidar entregas em endereços fixos, reduzir tentativas frustradas e diminuir quilometragem por rota. Isso não significa que a entrega domiciliar desaparecerá.
Significa que o consumidor pode ganhar mais opções.
Casa.
Trabalho.
Locker.
Loja.
Ponto parceiro.
Click & collect.
A logística deixa de oferecer um único caminho.
Na Europa, esse modelo já ganhou outra escala
Mercados internacionais ajudam a mostrar até onde essa tendência pode chegar.
Na Europa, a Geopost encerrou 2025 com aproximadamente 140 mil pontos de retirada e lockers. Segundo dados da própria companhia repercutidos pela Agência E-Plus, a rede permite que 94% da população europeia esteja a menos de dez minutos de um ponto de retirada.
O Brasil possui características territoriais, urbanas e de consumo muito diferentes, portanto não é possível simplesmente transportar o modelo europeu para cá.
Mas a comparação ajuda a entender a lógica.
Quanto mais densa a rede, menor tende a ser o esforço necessário para o consumidor utilizá-la.
A conveniência depende de capilaridade.
O checkout passa a fazer parte da estratégia logística
Para os e-commerces, existe também uma implicação tecnológica.
Não basta construir pontos físicos.
O consumidor precisa conseguir encontrá-los facilmente.
Uma experiência eficiente pode permitir que, ao inserir o CEP no checkout, o comprador visualize pontos próximos, distância, endereço e horário de funcionamento.
A própria Loggi recomenda apresentar a distância até os pontos disponíveis no momento da escolha do frete. Isso transforma uma decisão operacional em experiência de usuário.
Se o ponto estiver a 300 metros da residência do consumidor e oferecer uma alternativa mais barata ou conveniente, pode ser atraente.
Se estiver a oito quilômetros, provavelmente não será.
A inteligência da rede está justamente em conectar localização, disponibilidade e conveniência.
O que as PMEs deveriam acompanhar
O crescimento de 53% no uso de pontos de recebimento não significa que toda pequena empresa deva abandonar a coleta tradicional.
Os dois modelos podem coexistir.
Uma operação com grande volume concentrado provavelmente continuará encontrando vantagens na coleta recorrente.
Já negócios menores, vendedores sazonais ou operações distribuídas podem encontrar maior flexibilidade nos pontos de postagem.
A decisão deve considerar densidade da rede, distância até os pontos, volume diário, horários disponíveis, custo por envio, SLA, integração tecnológica e processo de logística reversa.
Mais importante do que escolher entre coleta ou PUDO é perceber que a PME começa a ter mais alternativas para desenhar sua própria logística.
Logística deixa de ser privilégio das grandes empresas
Esse talvez seja o aspecto mais relevante do avanço dos pontos de recebimento.
Historicamente, escala logística representava uma enorme vantagem competitiva para grandes varejistas.
Centros de distribuição.
Contratos dedicados.
Coletas programadas.
Tecnologia.
Grandes volumes negociados.
Pequenos negócios dificilmente conseguiam reproduzir essa infraestrutura.
Redes PUDO ajudam a mudar parte dessa equação.
Em vez de cada PME precisar construir sua própria estrutura logística, ela passa a utilizar uma infraestrutura compartilhada.
E isso pode diminuir algumas das barreiras operacionais para vender nacionalmente.
Uma nova camada física para o e-commerce brasileiro
O crescimento do comércio eletrônico fez o varejo digital parecer cada vez menos físico.
Mas a realidade está mostrando exatamente o contrário.
Quanto mais compras acontecem online, maior é a necessidade de uma infraestrutura física capaz de movimentar milhões de caixas pelo país.
Galpões.
Hubs.
Centros de distribuição.
Lockers.
Transportadoras.
Lojas.
Farmácias.
Mercados.
Pontos de bairro.
O avanço dos PUDOs mostra que essa infraestrutura pode se tornar muito mais distribuída.
O dado da Loggi — 39% das postagens das PMEs analisadas já realizadas por pontos de recebimento — é um sinal importante dessa transformação.
Para o ecossistema de e-commerce, a tendência merece atenção porque aproxima duas estruturas que durante muito tempo pareceram separadas.
O comércio físico pode funcionar como infraestrutura do digital.
E o digital pode gerar tráfego, receita e uma nova função econômica para milhares de estabelecimentos físicos.
A próxima evolução da logística brasileira talvez não dependa apenas da construção de centros de distribuição cada vez maiores.
Pode depender também da criação de milhares de pequenos pontos, cada vez mais próximos de quem vende e de quem compra.
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