Shein admite que a fabricação no Brasil “não deu certo”: o que isso revela sobre o futuro da moda no e-commerce

MARKETING

Redação

2/21/20264 min read

a factory filled with lots of machines and equipment
a factory filled with lots of machines and equipment

Do plano bilionário ao freio: por que a produção local travou

A Shein reconheceu que sua tentativa de escalar a fabricação no Brasil não avançou como esperado. A empresa atribuiu as dificuldades a diferenças de infraestrutura e maturidade industrial, enquanto fabricantes locais relataram pressão por preços e prazos considerados inviáveis, levando ao encerramento de contratos.

O episódio é relevante porque a Shein havia anunciado, em 2023, um plano ambicioso: investir US$ 150 milhões, desenvolver um polo produtivo e onboardar 2.000 fabricantes, com a expectativa de gerar cerca de 100 mil empregos em três anos. Agora, com a estratégia ajustada, o caso vira um “estudo vivo” sobre os limites e os aprendizados da localização de produção (nearshoring) no varejo de moda digital.

O que aconteceu na prática: choque de modelo operacional

A Shein construiu sua vantagem global em uma lógica de ultra agilidade: ciclos curtos, capacidade de produzir pequenos lotes, reagir rápido a tendências e operar com custos competitivos. Replicar esse modelo fora do ecossistema chinês — onde a companhia consolidou rede de fornecedores e processos extremamente flexíveis — é mais difícil do que parece.

Segundo a Reuters, ao tentar transformar o Brasil em hub, muitos parceiros locais se afastaram por não conseguirem atender às exigências de custo e velocidade, além de desafios ligados a regras trabalhistas, logística e escala de produção. O Tecnoblog reforça esse ponto ao relatar que fabricantes apontaram pressão por valores inviáveis e rompimento de contratos.

O resumo do choque: o que é “prazo normal” em parte da indústria brasileira pode ser “lento” para um modelo que opera em poucos dias — e o que é “custo mínimo” para um player global pode ficar impraticável quando entram impostos, dispersão geográfica e produtividade local.

O contexto regulatório ajudou a empurrar a tentativa de produção local

O movimento também se conecta a mudanças no ambiente de importação. A Reuters lembra que, em 2024, o Brasil implementou imposto de importação de 20% para remessas de até US$ 50, medida que aumentou o incentivo para buscar alternativas locais e reduzir dependência do cross-border barato.

Só que incentivo não resolve execução: produzir localmente exige engenharia de produto, desenvolvimento de fornecedores, controle de qualidade, previsibilidade de demanda e uma malha logística compatível com SLAs agressivos — especialmente em moda, onde devoluções e trocas também pesam.

O Brasil continua estratégico para a Shein, mas com outro “plano de voo”

Mesmo com a fabricação local patinando, a Shein segue forte no país. A Reuters cita estimativa de US$ 3,5 bilhões em vendas no Brasil em 2025, destacando o mercado como um dos mais relevantes para a companhia.

E é aqui que a estratégia muda de eixo: em vez de apostar tudo em produção local massiva, a empresa passa a enfatizar o marketplace com vendedores brasileiros, ampliando a oferta local dentro da plataforma. Reportagens também descrevem como a operação já vinha atraindo vendedores no país desde o lançamento do marketplace, com expansão do ecossistema de sellers.

O que o caso ensina ao ecossistema de e-commerce

Para quem vive o dia a dia do varejo digital (marcas, indústrias, operadores de marketplace e sellers), o caso Shein traz aprendizados bem práticos:

1) Nearshoring não é “trocar o endereço da fábrica”

Produção local exige curva de maturidade: padronização, treinamento, engenharia de processos, integração de dados (pedido–produção–estoque–expedição) e governança de qualidade. Sem isso, o custo sobe e o prazo escapa.

2) Unit economics vence narrativa

Mesmo com incentivo regulatório, a conta fecha (ou não) em: custo por peça, retrabalho, devolução, lead time e ruptura. Se o total não competir com a importação, a operação fica frágil — e o fornecedor local não sustenta.

3) SLA de moda é um produto — não um detalhe

No e-commerce, prazo e previsibilidade não são só logística: são parte da conversão. Operações com promessa agressiva precisam de cadeia igualmente agressiva.

4) Marketplace é a rota mais rápida para “localizar oferta”

Quando produzir localmente é difícil, um caminho é localizar catálogo via sellers e distribuidores locais. Isso encurta prazo, reduz fricção e pode melhorar reputação — desde que haja controle de qualidade, antifraude e boa experiência.

5) Quem vende moda precisa olhar além do preço

O aumento de concorrência “ultra fast” pressiona o mercado, mas também abre espaço para diferenciação com: marca, qualidade percebida, comunidade, experiência omnichannel e pós-venda.


Conclusão: a fabricação da Shein no Brasil falhou, mas o aprendizado é ouro

A Shein admitir que a fabricação no Brasil não deu certo não significa que o país perdeu relevância. Significa que o Brasil exige um modelo próprio, compatível com sua estrutura industrial, logística e regulatória — e que “copiar e colar” a fórmula de outro país pode custar caro. Para o público da ExpoEcomm, o recado é direto: 2026 será cada vez mais sobre cadeias inteligentes, integração operacional e estratégia de canal. E, no varejo de moda, vencerá quem conseguir equilibrar velocidade, margem e confiança — seja produzindo localmente com maturidade, seja construindo um ecossistema sólido de sellers e parceiros.


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